Traduzido por Caio Forne
Autor: William Gillis
Original: A Quick and Dirty Critique of Primitivist Anticiv Thought
Uma Crítica Rápida e Direta ao Pensamento Primitivista e Anti-civ
Introdução
Quando eu tinha seis anos, o meu pai anarquista me contrabandeou uma cópia de Jurassic Park, apesar das proibições da minha mãe. “Quando você souber ler, pode ler”, ele disse, e em menos de um ano eu não apenas tinha aprendido cada palavra, como também já havia lido minha cópia gasta de cabo a rabo dezenas de vezes nas esperas entediantes em abrigos para sem-teto, cozinhas comunitárias e postos da assistência social. Cercado por uma distopia suja de concreto, eu lia, de olhos arregalados, a personagem Cassandra denunciar sistemas rígidos de controle como propensos a retornos decrescentes e à catástrofe inevitável — e descrever como caçadores-coletores trabalhavam muito menos e se divertiam bem mais. Eu tava viciado. Entre acampamentos sobrevivencialistas de fim de semana e panfletos do Zerzan na livraria de usados, o primitivismo me deu ótima munição contra a miríade de tiranias que poluíam a minha existência, da escola primária às esquinas da pobreza. “Essas também cairão”, eu me contentava. Eu brincava na pequena floresta atrás dos projetos governamentais de moradia em que depois começamos a morar, e detestava a corrupção que havia se infiltrado. Eu pegava concreto e quebrava janelas de carros com meus amigos.
Mas, principalmente, eu continuei a ler.
E gradualmente, lentamente, eu comecei a reconhecer outras dinâmicas envolvidas, outras possibilidades, e críticas ao poder mais sólidas ou embasadas. As afirmações de John e companhia começaram a azedar. Eu ia percebendo que elas eram menos e menos fundamentadas, bem definidas, ou completas. E, conforme os pontos com que eu concordava iam sendo colocados com uma retórica cada vez mais desonesta ou oportunista, eu me sentia traído. Eu comecei a conscientemente romper com o primitivismo enquanto lutava nas ruas de Seattle em ’99. Eu me tornei muito audacioso pra me contentar com os limitados valores, planos e estratégias do primitivismo, e era evidente que não haveria volta.
O mesmo amor insaciável pelo universo natural que fez com que eu me apaixonasse pelas florestas de Cascadia, acabou me levando à física teórica. E quando me lembro do primitivismo o que eu vejo agora nunca pareceu tão frio e irreconhecível. Uns caras gargalhando e incentivando a morte de bilhões. Anti-intelectualismo aberto e argumentos inacreditavelmente ruins. Sistemas morais grosseiros, bem como más interpretações de registros antropológicos e arqueológicos. Claro que há exceções — de vez em quando aparece alguém intelectualmente atento, analítico e sincero, cansado e fazendo o seu plano B. Mas o Primitivismo como um todo? Não consigo ver como o surgimento de cultos pseudo-Maoístas autoritários, o John se refugiando para abraçar abertamente o ‘espiritualismo’, e os idiotas assassinos que acham que jogar a palavra ‘modernismo’ serve como argumento, possam estar desconectados da podridão de fundo.
Eu escrevi sobre esse assunto uma década atrás[1], mas o meu confronto foi direcionado às formulações teóricas do primitivismo que eu achei mais essenciais na época. Por algum motivo – e talvez para pior – a maioria dessas correntes desde então se extinguiram. Hoje o panorama é ainda mais ideologicamente fraturado e muitos regrediram a um nebuloso posicionamento “anti-civ” que herda a maior parte da estrutura primitivista enquanto se mantém vaga o suficiente para se esquivar da maioria das críticas. Mas ao mesmo tempo que aqueles que se identificam como anti-civ podem romper individualmente com alguns aspectos do primitivismo, sem nenhuma das estruturas ou narrativas do primitivismo, não seria possível um posicionamento anti-civ.
Fundamental ao próprio termo “anti-civ” é uma noção ampla de “civilização” que é intensamente problemática e serve para narrativas muito simplistas. O primitivismo é cheio deste tipo de acenos irreducionistas que sonham com grandes monstros a partir de associações vagas e dão a eles a agência de forças mágicas que atuam na macroescala, moldando cada pormenor. Seguindo uma abordagem que Ellul chamou abertamente de “monismo”, o primitivismo se recusa a considerar esses fantasmas separadamente, a reconhecer qualquer conflito ou amplitude na configuração de suas dinâmicas constituintes. Tudo é visto como inextricavelmente tecido num todo que age de acordo com uma narrativa simples. Uma tal forma conspiratória de pensar é basicamente só dobrar a aposta no Marxismo, substituindo “capitalismo” por monstros ainda mais amplos e mais abstratos, “tecnologia” e “civilização”. Esses contos geralmente são explicitamente anti-radicais no seu desdém por chegar nas raízes da questão.
Essa tendência reacionária leva ao nivelamento de apelos normativos em termos de noções macroscópicas amplas ou ondas de intuição ao invés de argumentos éticos concretamente embasados. Primitivismo é mais uma história do que uma análise. E para funcionar ele assim requer uma poda de complicações, nunca pesquisando para além do quadro teórico ou dos termos da narrativa macroscópica. Ele alegremente coleta pilhas convenientes de factoides, alegações, e até pontos concretos. Mas já que o que mais importa são as noções amplas, qualquer crítica específica que alguém possa fazer a alguma dada afirmação é facilmente desviada com novas afirmações. Enfrentar o primitivismo efetivamente primeiro requer adentrar o nível de generalidade em que ele opera – criticando classes, categorias, ou tipos de argumentos dentro do discurso primitivista para não deixar espaço para recuo, para encurralar qualquer argumento específico de todos os lados. Só depois disso podemos entrar nos detalhes sobre as possibilidades e dinâmicas de inúmeras questões particulares, como a mineração de coltan.
Tecnologia
A definição convencional de tecnologia é basicamente “jeitos de fazer coisas”. E então isso inclui linguagem, conhecimento, equações, táticas, heurística, ferramentas, e até mesmo os nossos corpos. Qualquer meio ou caminho possível pelo qual alguém pode agir ou conseguir alguma coisa.
Porém no uso comum “tecnologia” acabou acumulando associações mais fortes com um subconjunto destes meios – ipods e escavadeiras ao invés de exercícios de balé ou cordas vocais. Essa “tecnologia” é um estranho pacote de coisas, mais uma estética de objetos físicos do que qualquer coisa substancial. A coisa é cinza? Tem metal nela? Tem quinas?
Existem muitos novos meios que se desenvolveram desde a industrialização, mas pessoas comuns não tendem a se referir a quadros brancos ou yoga como “tecnologias”. Ao invés disso, há uma narrativa muito específica de progresso que é amplamente vendida para nós pelos nossos governantes e ela coloca coisas como notebooks e carros como o ápice de todas as tecnologias – ao ponto de que outros meios de fazer as coisas são implicitamente ridicularizados. Da mesma forma embora “máquina” possa significar praticamente qualquer coisa com subdinâmicas perceptíveis que usam energia para fazer coisas, nós não tendemos a considerar patos-reais ou arminhas de água como “máquinas”. Existe uma teleologia implícita contida na forma com que usamos esses termos.
Primitivistas frequentemente usam essa noção ou narrativa mais vaga como seu ponto de partida ao invés da definição mais ampla porém mais concreta. E eles buscaram diferentes definições de tecnologia ao lado de diferentes análises para testar e explicar melhor essas associações. Mas eu não tenho certeza de que em última análise existe qualquer coerência ou conteúdo no viés popular no nosso uso. Há um senso de que nós “identificamos a tecnologia quando a vemos” e ainda assim isso parece apelar para nada mais do que uma corrente estética
de uma linhagem bastante aleatória. A noção popular é arbitrária de várias maneiras que estão se tornando cada vez mais inescapáveis e parece mesmo que não temos escolha a não ser largá-la em prol da mais precisa e embasada – ainda que mais ampla – definição de meios (algo que é impossível de rejeitar totalmente sem rejeitar toda liberdade para agir).
Ao passo que pensadores específicos construíram estruturas específicas de afirmações, em geral eles tendem a seguir duas abordagens distintas ao desenvolver definições alternativas de “tecnologia” que são mais estreitas do que “ferramentas” ou “meios”. Esses dois loci de definições alternativas ainda são bastante influentes ao pensamento anti-civ, e examiná-los é altamente ilustrativo.
Rigidez
A primeira dessas abordagens para definir “tecnologia” é apelar à intuição, popular em nossa época, de uma dicotomia entre seres vivos e não-vivos.
Algumas coisas são “vivas”, outras coisas não são. Isso é uma regra prática comum e biólogos pelo menos por algum tempo se esforçaram para fazer disso uma taxonomia precisa. Mas a categoria de “vivo” é uma intuição notoriamente problemática e provavelmente sem sentido (os vírus têm vida? Príons? E as estrelas? Por que não deveríamos interpretar que cristais e pedras têm vida? Onde os limites entre organismos deveriam ser estabelecidos? Entre eles e seu meio ambiente?)
Por outro lado, ao contrário de “vivo”, há esperança de que a nossa noção de “orgânico” possa realmente ser preservada. Podemos às vezes fazer uma distinção substancial, que considera flexibilidade ou fluidez, e rigidez ou fragilidade. E certamente estruturas desenvolvidas estupidamente como estradas e carros são extremamente rígidas e frágeis. Nós sempre tivemos mais tecnologias orgânicas, mas é certamente verdade que tem havido pressões notáveis por tecnologias excessivamente rígidas, particularmente na era industrial. A maior parte do que é invocado pelo termo “civilização industrial” são enormes projetos de infraestrutura e operações de pouca ou nenhuma adaptabilidade. O capitalismo moderno depende da ausência de sinais dinâmicos de preço e redistribuição; grandes e imponentes instituições políticas e econômicas dependem de rigidez, a manutenção perpétua de certas condições, de forma que elas não precisem calcular nem se ajustar a condições mutáveis, sejam elas ecológicas ou humanas. E somas inacreditáveis de violência e energia humana foram gastos para manter certas condições arbitrárias – demanda, preço, etc. A rigidez de grandes projetos de infraestrutura como o sistema rodoviário, os diversos subsídios de combustíveis fósseis, etc, dão suporte a essa paisagem social. Rigidez é certamente típica de qualquer sistema propício a relações de poder, e quanto mais rígido mais potencialmente frágil.
É fácil associar isso às engrenagens e à argamassa simples e rígidas das primeiras fábricas industriais. Quando dizemos que algo é “frio e mecânico” o que queremos dizer geralmente é que ele é rígido e tem uma estrutura excessivamente simples ao invés de ser ricamente complexo, envolvente e adaptativo.
Ainda assim a esmagadora tendência nos dias de hoje – mesmo que seja tarde demais – é a de fazer com que as nossas ferramentas sejam mais fluidamente reconfiguráveis. Computação de uso geral sempre foi no fundo uma tentativa de escapar da rigidez dos mecanismos de configuração única. E agora o grande movimento é fazer com que o hardware dos computadores e outras ferramentas seja mais fluido tanto nas suas funcionalidades quanto na sua composição. De forma que possamos construí-los ou desfazê-los e reconstruí-los instantaneamente em nossa garagem ou hackerspace local de formas mais descentralizadas e “faça você mesmo”.
Da mesma forma o impulso primitivista para fazer oposição à biotecnologia não combina, em última análise, com uma definição de tecnologia enquanto rigidez. Apesar de os seres humanos sempre terem usado biotecnologia desde o cultivo de plantas muito antes da agricultura até o enxerto de árvores, desenvolvimentos recentes nos deram muito mais conhecimento e amplitude sobre como reconfigurar sistemas biológicos, incluindo coisas como biohackers anarquistas fazendo com que leveduras produzam proteínas essenciais do queijo sem escravizar vacas. Embora algumas empresas multinacionais possam sem dúvida encorajar seus engenheiros e tecnólogos a abordar a biotecnologia de uma perspectiva rígida – desajeitadamente costurando genes aleatórios com pouquíssimo conhecimento ou apreciação por muito contexto para além da imediata tentativa e erro – muitas claramente não fazem isso.
Existe um problema profundo aqui: Mais graus de liberdade na manipulação e reconfiguração – na ação – é a definição de fluidez orgânica, então de maneira nada trivial nosso ímpeto de entender melhor as coisas e de ter mais meios de fazer as coisas é em última análise uma pressão por mais ferramentas orgânicas. O desenvolvimento tecnológico – no sentido de invenções que expandem nosso conjunto de ferramentas a serem escolhidas – pode claramente ser alinhado numa direção positiva. De fato, quando tecnologias mais velhas ou mais simples não são fortemente pisadas por estruturas de poder e novas tecnologias não são censuradas ou filtradas, qualquer nova invenção agrega ao conjunto de meios possíveis que temos, e assim inerentemente expande a fluidez das nossas opções.
Seguindo esse argumento até o fim, sinceramente, a conclusão seria a de que nós precisamos de ecossistemas de ferramentas mais amplos e diversos, não menores. De fato é possível rapidamente perceber que o pecado da rigidez de nossa infraestrutura e dos nossos sistemas sociais é a forma com que eles suprimem florescimento tecnológico.
Complexidade
Porém a segunda maior abordagem primitivista para definir “tecnologia” é à primeira vista quase o exato oposto da dicotomia orgânico/inorgânico: Nessa lente o que é focado como problema é a complexidade de várias ferramentas e as infraestruturas ou o contexto social em que elas estão inseridas.
A propósito: eu sou velho o suficiente para me lembrar de quando a primária crítica anarquista verde à nossa tecnologia era a de que ela era muito simples ou entediante e exigia muito foco rígido (aquela época tinha todo tipo de slogans zoados como “apenas as máquinas não têm TDAH” ou “a civilização está nos tornando autistas” que nunca colariam hoje em dia). Na última década é claro o script se inverteu quase completamente; agora a “tecnologia” é frequentemente atacada por ser inerentemente muito envolvente, muito complexa, e muito sem foco. Em vez de desligar a mente na frente da TV agora estamos rapidamente indo e voltando entre a wikipédia e mensagens de texto nos nossos celulares. Certamente ambas as atitudes representam uma resistência significativa contra tendências reais nas ferramentas e nas normas de suas épocas, mas o salto de definir tecnologia “inerentemente” nesses termos é um pouco frustrante.
No entanto existe algum fundamento nas críticas à complexidade dos sistemas que usamos. Cérebros humanos são surpreendentemente complexos e muito maleáveis, mas existem limites arquitetônicos ao que nós conseguimos processar ou manter sob atenção consciente, isso sem falar da velocidade desse processamento. Todos nós já experimentamos interfaces ruins, muito bagunçadas em um aplicativo ou até apresentações pedagógicas ruins de um assunto que exige uma enorme reconfiguração mental nos nossos cérebros para que seja processado. Às vezes isso pode ser como um alongamento mental — em alguns contextos um exercício saudável, em outros algo apenas neutro ou irrelevante. Mas às vezes realmente entender ou diligentemente se envolver num sistema está para além da nossa capacidade cognitiva atual – e às vezes é até para
além de qualquer supercomputador viável. As ferramentas criptográficas que foram um sucesso vertiginoso na luta contra a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos apenas são possíveis por causa de limites computacionais inescapáveis embutidos no nosso universo pela matemática e pela física. Se criarmos um sistema suficientemente complexo, ele estará para além da capacidade de qualquer autoridade central ou supercomputador de compreendê-lo completamente, muito menos controlá-lo. Em muitos aspectos isso se aplica à nossa sociedade atual.
Um bordão comum no discurso anti-civ é o de que sociedades de larga escala são antinaturais e impraticáveis porque nós não podemos conhecer todo mundo da mesma forma que poderíamos em pequenas tribos. Os relacionamentos e dramas interpessoais em jogo numa tribo de umas cem pessoas podem ser complexos, mas quando é com milhares ou milhões ou bilhões de pessoas os nossos fracos cérebros não conseguem entender nada. E então, diz a história, passamos as nossas vidas desconectados e desgastados mentalmente pela complexidade incalculável da sociedade ao nosso redor.
Certamente é verdade que às vezes podemos nos sentir sobrecarregados pela impressionante diversidade da vida e da crescente complexidade cultural desencadeada por grandes sociedades, mas existe uma diferença importante pra ressaltar entre a complexidade revigorante de um novo gênero de rap queer, versus a impressionante complexidade de formas burocráticas em um sistema que nos nega vales-alimentação governamentais. Poder e escolha importam. Quando as nossas vidas são colocadas em jogo à força, ou quando estamos tentando fazer uma diferença mas não temos ideia de por onde começar, um esmagador sistema complexo pode ser alienante e aterrorizante, especialmente quando a violência simplifica artificialmente a nossa opção de não se engajar.
Mesmo assim, sem essa pressão a complexidade se torna deliciosa e revigorante. De fato, muito das tendências transculturais que consistentemente exibimos em resposta a diferentes mídias visuais tem a ver com quais dinâmicas complexas conseguimos perceber nelas — qual a interação orgânica que nossos cérebros percebem em uma floresta, em comparação com uma paisagem rochosa sem atrativos. Essa fome por complexidade, que lembra as crianças, é tirada de nós à força e nós adotamos uma vida de mortos-vivos sóbria e sedentária apresentada como “idade adulta” ou “maturidade”. Mas de novo e de novo nós nos esforçamos para conseguir conexão mais ampla e comunidade para além do tamanho de meras tribos. Caçadores-coletores voluntariamente se reuniam aos milhares por semanas ou meses a fio buscando desesperadamente aproveitar os benefícios da sociedade em massa mesmo em lugares onde a terra não sustentaria isso permanentemente.
Uma noção frequentemente associada é a de que não temos motivo para nos preocuparmos com quem não temos vínculo, ou que não conhecemos profundamente e pessoalmente. Essa visão niilista de ética é defendida de forma mais proeminente pelo grupo terrorista Indivíduos que Tendem à Selvageria, que tentou assassinar estudantes e anarquistas na Cidade do México; eles explicitamente rejeitam e ridicularizam sentir compaixão por pessoas para além da própria tribo. A resposta óbvia, de que a empatia é generalizável e que podemos de fato sentir compaixão pelo estranho que tropeça diretamente na nossa frente, é, penso eu, bem trivialmente verdadeira e óbvia para qualquer pessoa que não seja uma sociopata. Assim como uma criança pequena eventualmente acaba percebendo que outras pessoas existem, nós também somos capazes de desenvolver uma melhor heurística e nos tornarmos mais coerentes nas nossas intenções, desenvolvendo não apenas a capacidade de considerar a existência de pessoas que conhecemos por meio de noticiários ao invés do olho no olho mas também de medir e analisar o nosso impacto sobre elas. Da mesma forma nós nos tornamos extraordinariamente bons em rapidamente nos adaptarmos a estranhos bem como a situá-los. Coincidência de local de nascimento, língua, família e etc não é – e não deveria ser – uma determinante para afinidade.
Certamente não reflete quais relacionamentos são mais férteis para colaboração e desenvolvimento libertadores.
A complexidade das nossas ferramentas físicas segue um arco parecido. A complexidade pode ser revigorante e pode ser aterrorizante – o que importa são as dinâmicas de poder embutidas nessas complexidades. E pode haver formas saudáveis de gerir ou navegar as nossas interações com sistemas incrivelmente complexos sem se retirar de todas as interações ou tentar enfraquecê-las artificialmente. De fato uma das maiores prioridades do poder tem sido a de suprimir a complexidade, limitar ou podar a ecologia de ferramentas possíveis a apenas algumas opções e impor estas opções universalmente. Esconder as naturezas internas das nossas ferramentas e seu contexto externo com uma fachada. É significativo que aqueles campos pelos quais os anarquistas se atraíram ou em que inovaram — como o open source — se destacaram por abraçar a complexidade. Claramente é importante manter a autonomia, ser capaz de escolher as ferramentas com a complexidade adequada ao que se precisa ou ao que se sente capaz de lidar. Certamente é importante reter agência, ser capaz de selecionar as ferramentas com a complexidade apropriada de que o indivíduo precisa ou se sente equipado para manejar. Onde nós escolhemos investir a nossa atenção e assim complexidade cognitiva ou simbólica é uma escolha importante, e muitos argumentos políticos ou éticos se resumem a validar igualmente preferências pessoais, domínios preferidos de experimentação e diversão. Mas a complexidade imbuída em uma ferramenta — seja algoritmos de redes mesh, um texto literário ou um arco esculpido à mão — não é, de forma alguma, intrinsecamente negativa.
Vale destacar que a palavra essencial aqui é “imbuída” — carregada e permeada de complexidade. Embora seja possível falar de complexidade em termos computacionais concretos como a formulação de Kolmogorov, “complexidade” também pode importar em termos intensamente subjetivos e relativos que não necessariamente possuem uma relação direta com limites físicos fundamentais. Seres humanos atribuem complexidade simbólica ou cognitiva de formas frequentemente aleatórias, situacionais ou antropocêntricas. Nós achamos os nossos corpos “mais complexos” do que recifes de coral ou rajadas de vento, mas nem é remotamente claro que existe alguma maior complexidade computacional acontecendo nas dinâmicas moleculares que nos formam. Existe um perigo em ser mais próximo do objeto de pesquisa e dessa forma atribuir a ele mais atenção e significantes conceituais.
Similarmente o nosso problema frequentemente tem sido o de não atribuir complexidade o suficiente às nossas interações com o mundo. A agricultura é cheia de exemplos de seres humanos construindo abordagens insuficientemente complexas ou nuançadas. Até a horticultura e caça ou forrageio quase sempre envolve simplificar drasticamente os padrões ecológicos a alguma estrutura ou modelo que é fácil de lidar ou de formular. Nós frequentemente buscamos reduzir a complexidade das dinâmicas que nos rodeavam para melhor monitorá-las e utilizá-las, e às vezes isso acaba sendo uma ideia bem ruim.
Na verdade faz tempo que o problema tem sido o de que temos construído ferramentas que não são complexas o suficiente para manejar os complexos ambientes ou detalhes que elas combatem.
A “complexidade” é frequentemente mencionada como um único diagnóstico mágico para o colapso de civilizações históricas, mas novamente o problema se torna quais “complexidades” nós vemos e nomeamos. Culturas podem se tornar complexas de formas insulares, criando redes interpretativas desconectadas ou linguagens que se referem a quase nada. Adicionalmente, estruturas de poder podem tentar desajeitadamente soldar nuances e métodos internos de contabilidade em si mesmas numa tentativa desesperada de compensar suas inadequações sem de fato dissolver os aspectos-chave de rigidez ou simplicidades impostas que preparam e sustentam sua existência. Tudo isso é verdade, ainda assim no final das contas impérios caem porque eles não são capazes de tolerar ou sustentar a complexidade interna necessária para que
haja engajamento e adaptação mais fluidos. De fato a partir de certo ponto de complexidade impérios deixariam de ser impérios, se dissolvendo em modos mais complexos/orgânicos.
As nossas tecnologias podem se desenvolver na direção da insularidade – exagerando com complexidade desconectada e desnecessária – e ao mesmo tempo elas também podem exagerar de maneiras excessivamente simples que não são receptivas aos detalhes complexos de seu ambiente e de seus usuários. Mas adicionalmente elas também podem se integrar fluidamente com essas considerações. Embora o próprio poder frequentemente aja para simplificar artificialmente para fins gerenciais ou para violentamente romper conexões de formas que levam à insularidade cancerosa, essa pressão é diferente, e de forma alguma ela é inerente à tecnologia em si. As ferramentas frequentemente estão inseridas num contexto maior, mas elas também podem ser distintas do contexto. Um martelo pode ser feito de várias formas e pode funcionar mesmo quando sua fábrica de martelos fecha. Muitas das coisas que os primitivistas amam considerar como “fundamentais” à produção de certas tecnologias são tudo menos isso.
Sim, realidades de infraestrutura são incrivelmente importantes. A criação do sistema rodoviário, por exemplo, famosamente levou à normalização da cultura do carro e uma variedade enorme de tendências derivadas. A violência abrangente do Estado permite que ele construa massa e escala artificiais e, assim, imponha formas ou estruturas sem muito cuidado com sua desejabilidade ou adequação. Os motores solares a vapor estavam prontos e altamente viáveis duzentos anos atrás, mas foram abruptamente afastados permanentemente quando o Império Britânico acabou conquistando um grande depósito de carvão junto de uma população de escravos para minerá-lo. Formas de infraestrutura interagem em uma grande variedade de maneiras com a psicologia, as normas sociais, e as estruturas de poder. Isso é absolutamente verdadeiro. A comunidade que constrói uma rede descentralizada de torres de rádio DIY que se estendem entre vilas para informar sobre estupradores ou tentativas de roubo terá uma pressão resultante em prol de uma configuração social específica. Da mesma forma a sociedade que força as pessoas a saírem de suas terras para reduzir o preço do petróleo será capaz de usar transporte mais barato para facilitar economias de escala, bem como amplitude imperial, e para suprimir a difusão de tecnologias alternativas por meio da redução de custos.
Mas é vital que nós saibamos distinguir entre infraestrutura aplicada e tecnologias individuais. E entre tecnologias, no sentido tradicional de meios ou conhecimento de como fazer, e produtos de consumo propriamente ditos. Essas são distinções que o primitivismo alegremente quer ignorar como se fossem partes inseparáveis de uma única “megamáquina”. Elas de fato formam uma narrativa mais simples se vistas juntas de forma imprecisa, mas distingui-las pode revelar muitas tensões e pontos que são críticos.
Absolutamente não há dúvida de que a vasta maioria das coisas que caracterizam a infraestrutura global atual estão podres e precisam ser modificadas. Mas precisamos fazer uma análise diligente disso, e não meramente apelar à maneira mais rápida de apresentar ou verbalizar nossa resistência.
E o fato é que a crescente complexidade da nossa tecnologia pode ser incrivelmente libertadora. Liberdade não significa simplificar o mundo ao nosso redor de forma que nós nunca precisemos mudar a nós mesmos para engajar com ele. E daí que não conseguimos entender a estrutura e função exatas de todo dispositivo que usamos? Nós tipicamente não entendemos as estruturas e funções bioquímicas das plantas que comemos. É certamente bom ser capaz de entender essas dinâmicas, mas toda interação humana com o mundo vai inerentemente envolver alguma abstração conceitual pragmática de complexidades subjacentes. Um mundo liberto com certeza seria um mundo ricamente exuberante e diverso, cheio de infinitas complexidades para explorar, mas nem todo mundo vai explorar as mesmas coisas.
As complexidades sociais e tecnológicas diante de nós podem ser novas e ainda não estabelecidas em algum tipo de equilíbrio dinâmico de longo prazo, mas tais equilíbrios são poucos e distantes entre si; a própria biosfera terrestre está sempre mudando. O mundo descrito por biólogos do século 18 que buscavam um mundo mecânico inalterado desde que foi posto em movimento por seu criador é uma mentira – uma tentativa de tornar a constante agitação da realidade mais palpável para uma classe dominante entediante, autodomesticada dentro de muitas paredes de simplicidade imposta. Esse tipo de simplificação violenta do mundo físico e dos desejos e pensamentos humanos é necessário para a ação do poder, e até da sua existência. Se quisermos que ele seja derrubado nós precisamos fazer mais do que esperar que a natureza o eroda, precisamos abraçar as fontes criativas de complexidade fluida e engajada dentro de nós.
Permanece uma grande riqueza e complexidade para além das duras paredes das periferias nos fluxos de nossa biosfera, e isso tem um valor significativo, mas uma natureza selvagem muito maior está diante de nós se tivermos a coragem de abraçá-la. Mergulhar de cabeça em águas desconhecidas — desenvolvendo novas ferramentas, novos entendimentos e novas relações. Não insularmente desconectados, mas conectados por uma variedade mais rica e impressionante de maneiras.
Atualmente existem grandes forças se aliando contra as complexidades cada vez mais profundas da era da internet e isso não deveria ser motivo de surpresa, mas também deveria nos deixar destemidos. Quando presidentes, políticos e chefes de polícia clamam pelo desmantelamento da internet, pela retomada ou invasão forçada de todo telefone e dispositivo agora nas mãos das massas, fica claro que eles estão sendo pressionados a encarar a inescapável realidade de que a complexidade é um anátema ao poder e ao controle. Mas a explosão de cultura, de conexão e de códigos que tem sido desencadeada nas últimas gerações tem um impulso incrível. Nossos governantes evidentemente podem, com sucesso, demoli-la, banir a computação de uso geral como quiserem e gastar uma grande energia para desfazer as tendências descentralizadoras e nos levar de volta a um panóptico centralizado, mas sua vitória dificilmente está garantida.
A interação das nossas ferramentas pode se tornar mais complexa do que qualquer pessoa ou órgão político pode controlar – tal como acontece com as nossas relações – mas isso pode ser uma coisa boa. Nós anarquistas deveríamos nos alinhar com o incontrolável.
Meios
Deve-se admitir que alguns primitivistas perceberam as contradições inerentes à rejeição da tecnologia em termos de rigidez e de complexidade. Mas algumas das respostas deles foram ainda mais horripilantes.
Adotando a definição convencional de “tecnologia”, a de que é qualquer meio de fazer coisas, alguns primitivistas deixaram que sua raiva e a energia de incontáveis narrativas destruíssem seu bom senso e abertamente concluíram de várias maneiras que deveríamos rejeitar expandir os caminhos pelos quais podemos agir. Porque fazer coisas é por si só algo errado. Ou porque o ato de tentar encontrar mais formas de fazer as coisas é errado. Ou porque buscar agir para além de um rígido script é deplorável. Ou porque tentar exercer mais “controle” sobre suas ferramentas, ou, usá-las ,e, assim, ter mais opções na vida, é o mesmo que tentar “controlar” outras pessoas, removendo suas opções.
Nessas abordagens a agência em si é colocada como inimiga do primitivismo. Isso frequentemente vem com uma forte adoção de uma “natureza humana” essencialista, ou um papel que somos obrigados a cumprir.
Pensamento consciente? Deliberação? Investigação? Estes são considerados como violações ou perversões do nosso caminho predefinido. O pensamento, a reflexão por si só, são tomados como uma tendência corruptora que deve ser rejeitada porque pode levar a lugares ruins. Nessa mentalidade a única “liberdade real” é nos tornarmos simples e limitados autômatos – animais que nunca levantam suas cabeças para pensar além do imediato para se engajar com um contexto mais amplo ou fazer escolhas informadas. Um tipo de liberdade orwelliana, que é a liberdade da própria liberdade. Com frequência isso está intimamente conectado às correntes anti-intelectuais na cena primitivista. Em particular, uma tendência intensamente reacionária que abandona e ridiculariza o intelecto e a ponderação diligente, como se fossem inúteis becos sem saída. Essa corrente é obviamente fascista e reflete rigorosamente os padrões do desenvolvimento histórico do fascismo. Mas precisamente sua linguagem de renúncia é adaptada à linguagem anarquista.
“A gente tentou usar tecnologia e olha a furada em que a gente se meteu” logicamente se torna “a gente tentou pensar sobre as coisas e olha a furada em que a gente se meteu”. O ato de pensar é visto como desesperado e totalmente ineficaz, uma perda de tempo masturbatória que apenas pode levar a falsos caminhos. Uma rejeição da tecnologia é inevitável dessa perspectiva. Não apenas smartphones, mas também a música, a linguagem, tática, estratégia, etc. A corrupção de grandes partes da cena primitivista em direção ao niilismo anti-civ tem sido o resultado inevitável.
Claro que ainda há muitos que não fetichizam a sobrevida do imediatismo e não abraçam inteiramente ou abertamente a obrigação de seguir algum script biológico. Mas eles frequentemente ainda herdam e invocam noções teleológicas de formas que se combinam na mesma direção – personificar sistemas naturais não pensantes como se tivessem orientações ou objetivos fundamentais que devessem ser respeitados. Alterar o curso de um rio é violência contra o sagrado, e dessa forma os castores estão negando a “liberdade” do rio. Como a sacralidade funciona como um freio cognitivo, não faz sentido dissecar as contradições ou distinções arbitrárias que esse tipo de pensamento gera. Muitas sociedades caçadoras-coletoras, no fim das contas, são animistas, então é um pequeno passo até que o seu nômade local subitamente comece a falar em termos de “espíritos das coisas” e que qualquer coisa que ele não gosta é “desrespeitoso” a entidades fictícias na cabeça dele. Como alguém determina exatamente o que esses espíritos querem? Fora de rituais que promovem uma perspectiva consensual arbitrária por meio de pressões sociais, não existe resposta. Apelar para a ciência de qualquer forma que não seja superficial e oportunista é invocar mais um demônio castigado.
Tenho pouca paciência ou esperança por aqueles que estão presos nessa visão de mundo. Eles não podem ser alcançados. E eu mostro essa tendência apenas como uma espécie de reductio ad absurdum preventiva para aqueles que ainda não foram levados perto do seu ponto sem retorno pela necessidade de justificar associações equivocadas com “a tecnologia”. Infelizmente não há esperança de alcançar aqueles que negam e rejeitam o pensamento em si.
Civilização
“Tá bom”, dizem alguns dos anti-civ, “certo, certo, certo, a gente admite que a tecnologia é um assunto espinhoso e talveeez haja espaço nas ruínas para vocês, nerds, com seus moinhos de vento e roteadores de wifi. Mas certamente todos podemos concordar que todo o edifício do nosso mundo existente é o produto de um único leviatã horrível, uma reação em cadeia genocida desencadeada na pré-história com o erro da agricultura, e que ele é tanto insustentável quanto totalitário”.
Essa história é parcialmente verdadeira.
No momento em que o último período glacial acabou, o registro arqueológico que temos mostra uma verdadeira explosão da população, da agricultura e das cidades. Como consequência, estruturas de poder novas, de maior escala, se tornaram possíveis, caracterizadas por relações mais persistentes. E por vários meios de conquista tais organismos eventualmente cresceram até chegarem em uma posição de domínio e se replicaram ao redor do mundo. Mas a história não é tão bem-acabada como a narrativa Primitivista convencional. Em particular, a afirmação de que grandes números de pessoas se associando em um local (cidades) equivalem inescapavelmente a opressão é, no melhor dos casos, frágil.
Hoje nós sabemos muito mais do que Zerzan e Perlman sabiam na década de 70, e não havia uma relação instantânea 1:1 entre os adventos da agricultura, as cidades e as hierarquias sociais de larga escala no registro arqueológico. Havia agricultura de várias formas sem cidades, cidades sem agricultura, cidades e agricultura sem hierarquia. Na melhor das hipóteses tem existido uma tendência em direção a certas associações, mas a causalidade precisa não é clara, para dizer o mínimo. Sem acesso aos mecanismos históricos reais é difícil afirmar que não há alternativas. Além disso, existem relativamente poucas linhagens verdadeiramente distintas de impérios no registro histórico, então não temos estudos de caso totalmente independentes. E o reduzido punhado de milênios desde a Era do Gelo não apresentou mais do que algumas iterações desses organismos macroscópicos e seus ciclos de vida — tempo insuficiente para traçar quaisquer regras claras ou sólidas sobre o espaço de fase das possíveis configurações.
É verdade que, com os excedentes e estoques da agricultura, é possível sustentar classes dominantes maiores e hordas saqueadoras. O surgimento de estruturas de poder macroscópicas focadas na escravização permanente de maiores e maiores regiões ao invés da invasão temporária – de abuso persistente ao invés de intermitente – estava ligado ao surgimento de contato social persistente e da agricultura. Mas houve milhares e milhares de anos em que os laços que uniam cidades, agricultura e hierarquia não haviam sido normalizados. A partir de descobertas no Levante nós sabemos que plantas já estavam sendo sistemicamente cultivadas vinte mil anos antes. Muita história se perdeu na Amazônia e na África Subsaariana por conta dos seus climas modernos; quem dirá sequer o que existiu durante o suposto período caçador-coletor da idade do gelo. Mas no momento em que as calotas polares começaram a recuar, populações incrivelmente grandes se reuniram na Grã-Bretanha para explorar a astronomia, se esforçando para alcançar as complexidades culturais da sociedade em larga escala mesmo sem a agricultura. Nativos americanos das Grandes Planícies se reuniam em vastos números, lutando pelos benefícios de maior conectividade apesar dos limites da terra. Similarmente a cidade pastoril primitiva de Çatalhüyük tinha uma população de ordens de magnitude superiores ao Número de Dunbar e era notavelmente igualitária. Sociedades urbanas fortemente igualitárias sem evidências de autoridade podem ser encontradas em todo o registro arqueológico. Desde a revolução social de Çayönü de 9000 anos atrás que durou dois mil anos, até a altamente avançada Harappa, contemporânea dos impérios do Nilo, Tigre e Eufrates.
Até recentemente o registro histórico tem sido quase exclusivamente escrito pelos conquistadores mais sedentos por sangue, e suas perspectivas são um terrível fundamento para análise. Mas mesmo o registro que eles deixaram é claramente repleto de indicações de sociedades resistentes exterminadas e utopias quilombolas/piratas.
O impulso para, apesar dessas coisas, ignorar estes capítulos perdidos da nossa história, fundamentalmente confunde o que são poder e anarquia. Não é porque um complexo de relações de poder conseguiu fincar suas bandeiras ao redor do mundo que as correntes anárquicas que ele tentou digerir no processo foram extinguidas em qualquer sentido. A presença de uma bandeira ou os moradores locais agora usando roupas ocidentais não equivale de jeito nenhum à vitória do império.
Nós com certeza vivemos em uma sociedade global mais altamente conectada mas existem profundas contestações ao grau e à natureza de sua estrutura. Essas contestações, essas tensões, tornaram-se incrivelmente complexas à medida que todos no planeta entraram em batalha acirrada. Há muitos avanços e derrotas de estratégia acontecendo ao redor de todos nós.
O fato de termos aumentado nossa interconectividade e complexidade cultural — seja por meio de vertentes que carregam a marca coercitiva do neoliberalismo, ou em nossos próprios termos na outra direção, de maneiras que resistem às dinâmicas de poder, como as comunidades somalis hackeando redes de celulares, ou os moradores e nômades congoleses construindo redes de rádio no estilo “faça você mesmo” para colaborar com a repressão de saqueadores e estupradores — não equivale à rendição a uma lógica imperial.
As forças do poder são bastante chamativas hoje em dia, mas elas não têm sempre necessariamente um efeito mais forte ou mais repressivo. O meio radical tem uma péssima tendência de recorrer a um cinismo e desespero generalizados, por medo de que algo menos caricatural do que “tudo tá terrível, e piorando cada vez mais” não seja persuasivo ao tentar mobilizar a nós mesmos e aos outros. A abolição da escravatura e do comércio transatlântico de escravos? Um espetáculo sem sentido! Todo mundo sabe que o trabalho assalariado em fábricas exploradoras etc ao redor do mundo é muito pior! E a população prisional é maior em termos absolutos, mesmo que radicalmente menor em porcentagem! Nós acabamos agressivamente, enfurecidamente incapazes de enxergar melhorias. Como outros notaram, essa fetichização frequentemente nos deixa confusos e incapazes de responder quando começamos a vencer.
É uma má ideia considerar o ostensivo “alcance” ou “tamanho” de um império como uma medida de sua força e opressão. O tamanho de uma marca colorida em um mapa não é indicação de seu poder. Com a mesma frequência acontece que “as montanhas são altas e o imperador está distante”; por conta de todo o seu espetáculo de poder, impérios “maiores” são frequentemente mais efêmeros. De fato um governo mundial bem poderia ser uma melhoria em relação aos cerca de 200 Estados-nação tão interligadamente ferozmente competitivos, redundantes e localmente presentes que temos hoje. Melhor ter burocratas distantes e confusos do que a atenção pessoal de policiais de cidades pequenas. Os colapsos de regime ou de sistema, quando acontecem, frequentemente são reorganizações para haver mais eficiência na proteção e no aprofundamento das relações de poder em si. A guerra civil entre feudos fraturados tem sido há muito tempo um ótimo meio de re-fortalecer as condições teóricas do jogo usadas para justificar
o poder. As eficiências computacionais gerais da descentralização podem significar coisas como
o genocídio de Ruanda sendo mais eficiente do que aquele do Terceiro Reich. Quando o Império Romano caiu, os Vândalos na verdade governaram suas seções do velho império mais eficazmente.
Ao mesmo tempo que o ecossistema moderno de Estados-nação não tem paralelos em vários aspectos horríveis, nossa sociedade de massas altamente conectada também tem sido incrivelmente propícia a forças anárquicas na cultura e na infraestrutura. Ainda mais potente por ser explicitamente consciente de suas intenções e vigilante na busca por fins mais anárquicos do que o mero igualitarismo.
Sim, os avanços tecnológicos aumentaram a importância do conflito entre poder e liberdade. E a “cultura urbana” pode ser culpada à medida que provê às pessoas as conexões e a profundidade de experiência necessárias ao desenvolvimento de tecnologias. Mas o arco histórico da “civilização” dificilmente representa uma única besta, e sim um complexo campo de batalha de forças distintas.
Ver a história em termos do desenvolvimento de uma única “cultura urbana” que reúne uma dúzia de coisas é de muitas maneiras um conto inventado para esclarecer as coisas em retrospectiva. Ele obscurece os graus mais salientes de liberdade e tensões que existiram em
eras anteriores e envolve uma vasta gama de dinâmicas históricas com um único arco relativamente teleológico.
Se a civilização é apenas qualquer tendência das pessoas se agregarem em grandes números, é difícil atribuir qualquer valor negativo a isso. E é desonesto afirmar que as macroestruturas de poder que dominam atualmente são o resultado inerente disso.
A selvagem desonestidade de ideólogos primitivistas fazendo afirmações mirabolantes sobre as sociedades caçadoras-coletoras já foi amplamente notada. É fácil refutá-los, mas perde a graça quando eles se escondem atrás de alegadas fontes mágicas de conhecimento. Mas deve ser dito que se nossa fome por comunidades muito maiores atenuou consideravelmente as velhas psicologias de desumanização e egoísmo que geraram violência e relações de poder em quase todas as sociedades humanas, isso foi para melhor. Prefiro que nossos inimigos e ídolos sejam arrastados para a luz do dia, onde possam ser fincados com estacas até a morte, do que deixá‑los eternamente se remexer e se espreitar por trás das relações interpessoais de pequenas comunidades, das quais temos pouca alternativa ou fuga.
Por fim vale a pena abordar a tentativa de definição ou identificação da civilização como a importação de recursos. Como se seres humanos e ecossistemas individuais não “importassem” recursos – que distinção arbitrária! Essa noção das cidades enquanto buracos negros no mapa que apenas podem sugar de um campesinato contratado é um apelo retórico sem conteúdo. O que as cidades (ou grandes agregados não geograficamente definidos de pessoas altamente conectadas) produzem é complexidade cognitiva/cultural/tecnológica, e esse é o motivo pelo qual as pessoas consistentemente e voluntariamente fazem comércio e se associam com cidades quando não há taxação ou ameaça de uso da força presente. Da mesma forma, o apelo à escala de fluxos de energia num mapa é algo que dificilmente vale a pena responder. Não apenas essa distinção é extremamente arbitrária, mas esse tipo de ‘pegada’ já existiu antes e está mais uma vez sendo desvinculado da conectividade social mais ampla representada pelas cidades. Será que os primitivistas realmente vão parar de chamar pontos de urbanidade densa de “cidades” ou “civilização” quando eles cultivarem/coletarem toda a sua comida/energia localmente em fazendas verticais? Da mesma forma, uma anarquia de asteroides escavados altamente interligados mas ecologicamente isolados pressiona o agrupamento superficial de impressões que é a “civilização”.
Todos podemos concordar que a devastação ambiental é negativa no geral. E ainda assim é precisamente o nosso impulso em direção a uma maior conectividade social – nossa perspectiva globalizada – que finalmente nos deu avaliações muito mais profundas do contexto das nossas ações. Caçadores-coletores eram cegos em relação às externalidades de suas ações que não resultavam em pressões ambientais relativamente imediatas. O intenso entrelaçamento social em larga escala, o conhecimento ampliado e as opções sociais proporcionados pelas cidades oferecem um caminho muito melhor.
Sim, este vasto e caótico experimento — esta fluxo intenso de pensamento humano liberado e de possibilidades em nossas relações — aumentou os riscos e trouxe clareza a muitos conflitos permanentes. Mas a alta densidade de conexões, ter uma variedade de opções para colaboração e comunicação para além de uma tribo relativamente estática, não é a mesma coisa que a rigidez de um império.
Nós sempre mentimos, retivemos informação, manipulamos, nos posicionamos de forma estratégica em relação aos outros, e usamos força física para restringir e dirigir as opções uns dos outros. Relações de poder nos seguiram até o meio urbano, mas a história da nossa guerra com elas não tem um arco preciso. Não vivemos na barriga de um monstro que abrange tudo. Na verdade nossas vidas se encontram à beira de espadas cruzadas. Estamos girando em um campo de guerra intensamente complicado e vasto. A grande conectividade da urbanidade cosmopolita
é uma das maiores vitórias da anarquia. Ela atraiu nossos inimigos como gafanhotos. Mas recuar, desmoronar e se espalhar ao vento – ser atropelado e encurralado sozinho mais uma vez por relações de poder mais atentas em pequenas tribos, com menos jeitos de escapar – é abandonar toda esperança ou pretexto de resistência.
Nossos Desejos Fundamentais
A coisa mais frustrante do debate em termos de “civilização” e “tecnologia” é que ela confina o nosso discurso a um nível muito alto de abstração macroscópica. E isso naturalmente obscurece argumentos mais profundos ou mais fundamentais sobre valores e objetivos. Eu não gosto desse modo de teorização imensa porque ele evita um embate mais direto ou mais honesto entre diferentes perspectivas sobre ética e motivações, frequentemente resultando em desonestidade.
Por exemplo, quando os primitivistas vomitam insultos sobre “especialização”, o seu verdadeiro alvo é a diversidade. Todos nós nos especializamos, essa é a natureza da individualidade e da subjetividade. Nossas experiências, nossos interesses e bases de conhecimento divergem inerentemente na medida em que temos qualquer agência, qualquer criatividade, qualquer investigação, qualquer liberdade para transitar. E é por meio da interação que nos beneficiamos das diferenças e singularidades de outras pessoas. Sempre existem algumas coisas que apenas conseguimos realizar pela colaboração. Então, quando os primitivistas alegam amplamente que é a especialização que faz com que a tecnologia moderna seja ruim, eles estão afirmando implicitamente que um certo tipo de “individualidade” – a autonomia autossuficiente – é melhor do que outro tipo de “individualidade” – a autonomia intelectual. Que a liberdade negativa é boa e a liberdade positiva é ruim. Mas todas essas dinâmicas fundamentais ficam encobertas por exemplos fortemente enviesados e manipulados. As ramificações completas de tal ampla lealdade à anti-especialização estão escondidas à primeira vista. Essa é a natureza desse tipo de discurso.
O Problema com a tecnologia é o de que ela “media” a nossa interação com a realidade, alguém declara. Mas o ar, os fótons, a nossa pele, os nossos neurônios corticais, não? – Tarde demais, essa nova racionalização para se opor à tecnologia já foi compreendida. E agora aquela pessoa se encontra presa na ramificação lógica de sua posição. O que é a mediação se não cadeias de filtros ou processos? O que é o pensamento abstrato ou a ponderação, se não precisamente isto: interceder na sequência causal normal de estímulação e reação? Pensar é o problema! Ter o devido cuidado ao invés de reagir imediatamente! Morte ao pensar! Morte às abtrações sobre abstrações inerentes à consideração e ao julgamento! O que queremos são vidas vividas no presente absoluto! Foda-se o planejamento! Nada de considerar qualquer coisa em profundidade ou por muito tempo! No fim das contas as coisas mais importantes que você deveria valorizar são “franqueza” e “imediatismo”! Todo o resto é só bobagem desconexa!
Ao pintar as barreiras e ineficiências com as quais lutamos em nosso contexto particular com um traço amplo (“mediação”), o primitivista sofre uma espécie de colapso ideológico até que sua estrutura ultradensa não permita nenhuma fuga, nenhum movimento cognitivo ou crítica adicional. Obviamente, como aconselhamento psicológico dentro de um contexto limitado, um maior grau de consciência do presente pode ser útil, mas quando as pessoas tentam construir filosofias completas a partir de “viver o momento”, isso se revela, no fim, um culto à morte. Uma pedra “vive no momento” – no momento que eu a cutuco, ela se move. É a reflexão recursiva, a modelagem interna, a exploração de possibilidades antes de agir e o conhecimento de um contexto mais amplo que nos dá agência.
Existem declarações normativas bastante significativas sendo ignoradas em diferentes análises primitivistas. Afirmações grandiosas e associações generalizantes logo se transformam em um emaranhado denso, que tanto serve de cobertura quanto empurra as pessoas para posições absurdas — tudo isso enquanto as raízes do problema permanecem intocadas.
O que nós valorizamos ou desejamos, ou deveríamos valorizar e desejar, no fundo?
Primitivistas tendem a fazer uma série de afirmações sobre as vidas dos caçadores-coletores. Eles eram mais felizes. Eles eram extremamente saudáveis, como Adônis. Eles faziam sexo o tempo todo. Eles até viam as luas de Saturno a olho nu. É como se fosse uma propaganda para uma nova pasta de dente. Se eles pudessem encontrar uma maneira de alegar que o primitivismo aumentará os pênis das pessoas eu tenho certeza de que eles tentariam.
É claro que essas alegações podem ser disputadas – em termos de quão tendenciosos são os seus exemplos, como são inerentemente enganosas as descrições antropológicas sobre “felicidade”, como eles negligentemente descartam horrores como a fome, e até que ponto o sucesso da vida primitiva por meio dessas métricas pode ser superado por outros meios – mas eu acho que essa é a abordagem errada. Eu realmente não me importo se viver como primitivo vai deixar meu pau maior. Por que deveríamos nos preocupar com essas superficialidades? Se a mera felicidade fosse a totalidade das nossas aspirações, nós simplesmente poderíamos nos enfiar em tanques de heroína.
O que nós valorizamos ou desejamos no fundo da nossa ética/motivação? O que nós desejamos
desejar, ou desejamos desejar desejar?
Mesmo que a felicidade seja algo que nós desejamos ou deveríamos desejar, ela é TUDO que nós queremos ou deveríamos querer? E se não for felicidade, existe algo mais inerente ao ser de alguém que é capaz de examinar e reestruturar seus desejos — algum tipo de prescrição natural que podemos seguir ou contra a qual podemos nos revoltar para nossa ruína? Essa é uma pergunta mais difícil porque ela requer uma identificação, uma definição particularmente relevante daquilo com que nos devemos identificar ou valorizar.
Os nossos cérebros mudaram ao longo dos últimos dois milhões de anos – até nos últimos dez mil – traços que lembram as crianças, como a curiosidade, se enfatizaram e se expandiram. Um longo arco em direção à luta contra o caráter relativamente morto e complacente da vida adulta. Atualmente os seres humanos são uma mistura confusa e esquisita de criaturas do Pleistoceno com outros elementos radicalmente novos; fisiologicamente somos uma série de contradições sem um objetivo fundamental definido.
Aqueles que não conseguem conceber nada para além de uma falácia naturalista muito superficial podem dizer que os seres humanos são definidos pelo cumprimento algum papel específico em uma máquina/ecossistema maior. Mas como saímos definindo qual é esse papel a partir da vasta variedade de leituras possíveis sobre ele?
O “propósito” da humanidade igualmente pode ser considerado como o de servir como um vírus de limpeza – entrar num evento de extinção em massa muito esperado para que a evolução possa ser acelerada (afinal, não existe imperativo ecológico em direção ao equilíbrio). Ou talvez o arco neotênico que adotamos ao reter nossa investigação e criatividade infantis é uma catástrofe evolucionária totalmente em desacordo com a biosfera mais ampla e nós deveríamos parar de pensar, parar de exercer nossa investigação infantil, ou até mesmo simplesmente matarmos uns aos outros! Ou talvez nós sejamos o ponto central da repentina singularidade deste éon Fanerozóico, uma forma de a vida saltar deste planeta num tipo de sucessão ecológica da maior escala, criando asteróides, semeando cometas, reconstruindo Marte da desolação, e pintando as estrelas de verde.
Ou talvez a categoria relevante não é meramente qual papel ecológico nós cumprimos, mas a nossa existência enquanto mentes esforçadas, redes neurais dinâmicas modelando o mundo ao seu redor – como crianças lutando para não serem vencidas pelos sedentários, moribundos circuitos de adultos. Honestamente eu acho essa explicação a mais forte. Como mentes investigativas, engajadas, criativas, nós não apenas ignoramos limitações, nós ativamente resistimos a elas e as superamos em todo nosso tempo de existência. De fato a criatividade e a investigação parecem de várias formas estar no cerne da liberdade, do pensamento, da existência. E na maior parte da história os criativos, os cientistas e afins têm sido situados em posições de resistência ao poder. Ocasionalmente as estruturas de poder aprenderam a devorá-los e incorporá-los, mas inevitavelmente esses métodos falham e aí aparecem grandes políticos na tv demandando a efetiva abolição da ciência ou da internet.
Meu ponto com esses exemplos é o de que precisamos ter clareza sobre o tipo de perspectiva ou motivação à qual estamos apelando. E sobre como isso se mostra na prática. Não é suficiente fazer amplas referências à “felicidade” ou à “terra”.
E ainda assim – como o Marxismo – o Primitivismo em grande parte se esquiva de abordar diretamente a nossa ética fundamental; evita fazer quaisquer argumentos concretos sobre por que deveríamos valorizar as coisas às quais ele apela. A ideia é que seu público alvo provavelmente terá acumulado algumas vagas associações positivas com as coisas que ele invoca (coisas verdes são boas!) e, assim, apelar a elas deve ser o suficiente. Mas note que isso é uma abordagem decididamente não-radical.
E todos os argumentos no mundo de que a tecnologia ou a civilização podem ter certas desvantagens são completamente irrelevantes se essas desvantagens estão fora dos valores fundamentais da pessoa.
Meu valor mais fundamental é a vigilância. Não vejo como alguém conseguiria falar de qualquer tipo de ética ou cuidado coerente sem ela. Na verdade foi a vigilância que me atraiu aos argumentos do primitivismo duas décadas atrás – preocupação com a falta da devida diligência e consideração das dinâmicas e externalidades da nossa sociedade industrial. Mas no fim das contas o que o primitivismo representa em última análise é um abandono da vigilância. O mundo do colapso permanente é um mundo em que nossa investigação do universo – a profundidade do nosso engajamento com a natureza – nunca pode progredir a partir de um certo nível. Um mundo em que a gama de meios (tecnologias) que podemos considerar é permanentemente e nitidamente limitada. Em que somos arrancados da riqueza dos pensamentos da maioria das outras pessoas e confinados a pequenas prisões de localismo.
Essas profundas desvantagens do mundo prefigurativo primitivista são horríveis o suficiente, mas a ideologia primitivista que se manifestou para defender essa prescrição se inclina inescapavelmente a um anti-intelectualismo perverso.
Destilado, o primitivismo é o exato oposto do pensamento radical. Em seu acolhimento reacionário de uma liberdade negativa Orwelliana implicitamente baseada num essencialismo biológico, ele se transformou em uma paródia do anarquismo. O retrato de “liberdade” enquanto um estado de ser natural estático imperturbável a ser defendido possui apenas laços fraquíssimos com a liberdade positiva – a liberdade para – da anarquia. O que a popular fantasia de colapso representada no livro “Endgame” de Jensen – onde todas as opções tecnológicas são banidas irrevogavelmente – realmente representa é a prisão definitiva. Tão absoluta ao ponto de não precisar de guardas.
Nesse contexto precisamos reconhecer que o primitivismo serve funcionalmente para levar a tradição de domesticação e vida sedentária ao seu auge: uma tentativa final desesperada para exterminar a rica explosão Cambriana de complexidade cultural e intelectual exuberante que
acompanhou a grande onda de conectividade social e opções de afinidade. Um evento de extinção sem precedentes na história da consciência. A perda permanente de ecossistemas culturais e intelectuais incalculáveis.
E para quê? Um estilo de vida sedado de imediatismo, de condições confortavelmente consistentes. Correntes alongadas, jaulas ampliadas. Aprimoramentos superficiais às custas de todos os avanços seguintes em liberdade no longo prazo. Existe uma palavra para pessoas que trocam toda a esperança pelo infinito em troca de prazeres imediatos, exatamente as pessoas que popularizaram a frase “no fim das contas estaremos todos mortos”… são os liberais progressistas.
Sim, a liberdade implica risco e perigo. Mas a segurança perpétua prometida pelo primitivismo é um pesadelo inconciliável com qualquer coisa capaz de se dizer anarquista sem engasgar. Os caixões são feitos “em tamanho humano”, nossas vidas devem ser vividas de forma maior do que isso.
Colapso Civilizacional
De qualquer forma deve ser dito que eu ocasionalmente me deparo com os primitivistas mais compreensíveis. O tipo de pessoa persuadida não pelo misticismo ou por uma hostilidade mortal à complexidade ou ao pensamento em si, mas principalmente por pragmatismo e desespero. Pessoas cujo abraço do primitivismo ou do pensamento anti-civ reflete não um anti-intelectualismo, mas uma análise sincera que não enxerga alternativas.
“Eu odeio pensar sobre isso”, mais um punk esgotado confessa pra mim enquanto bebe bourbon. “Toda vez que eu olho pro mundo tudo que eu vejo é morte”.
E com certeza, sim, o ecocídio desenfreado continua inabalável em grande parte. Mas narrativas simples têm um tipo de apelo irresistível. Se torna fácil perceber padrões em tudo dentro da estrutura delas. Os mesmos circuitos mentais acionados, de novo e de novo e de novo. Com o tempo, ficamos tão perdidos nesses padrões mentais já gastos que eles passam a parecer um torno. Eles ficam tão dolorosos — a sensação de estar preso tão fundo — que acabamos desenvolvendo uma aversão a fazer o esforço vigilante de superá-los. No momento em que algo começa a nos lembrar da narrativa aprisionadora, nós fugimos com repulsa disso, aceitando-a implicitamente ao invés de nos engajarmos criticamente com ela.
Mas a verdade é que nós exploramos bem pouco.
A história humana até aqui tem sido inimaginavelmente breve quando vista pelas escalas de diferentes ciclos evolucionários sociais. Também têm sido de certas formas uma única história. Isso obriga tanto uma certa dose de hesitação na hora de inferir qualquer coisa, quanto uma certa dose de diligência. Não somos capazes de estabelecer algumas centenas de planetas Terra completamente separados e dar replay no fim da era do gelo e no advento das sociedades de larga escala. Temos apenas um planeta Terra. Isso torna ainda mais imperativo que façamos a coisa certa, que tomemos o melhor caminho possível. E parte disso significa fazer todo o nosso dever de casa. Não se contentar com omissões fáceis ou histórias simples como o primitivismo faz, mas proativamente considerar o máximo de possibilidades que conseguirmos.
Quem sabe quais parâmetros aleatórios aconteceriam de forma diferente se clonássemos cem planetas Terra pré-históricos. Quais teleologias aleatórias ou avaliações “deterministas” da história iriam desmoronar, reveladas como simples contação de histórias após os fatos já terem acontecido. Parece provável que muitas iriam.
Independentemente do que pode ser dito em propagandas da Boeing, não há um caminho único e objetivo para o “progresso” tecnológico. A história é repleta de acontecimentos acidentais e caminhadas aleatórias pelos diferentes caminhos disponíveis. Mesmo que em termos mais amplos nós possamos falar de uma tendência da criatividade tecnológica de criar mais meios disponíveis e que geralmente existem algumas dependências sequenciais a quais tecnologias são inventadas, geralmente existem muitos e muitos caminhos. E as progressões sociais-infraestruturais que acabaram acontecendo – como a exploração insana de combustíveis fósseis – não são escolhas inevitáveis. Eu cheguei a mencionar a máquina a vapor solar de Augustin Mouchot, e seu eclipse devido tanto a uma redução nos preços do carvão graças à conquista imperial Britânica quanto a um tratado Franco-Britânico. Basta dizer que se uma revolução anarquista tivesse acontecido naquele momento, ou mesmo se os caprichos da geopolítica tivessem se desenrolado de outra forma, nós teríamos tomado um caminho diferente. Existem exemplos incontáveis de acaso ao longo das histórias do desenvolvimento tecnológico. Às vezes para melhor, às vezes para pior.
É fácil pensar em diferentes caminhos que poderíamos ter tomado para sair da era do gelo e entrar nas tecnologias de informação caso tivéssemos desenvolvido e mantido um ethos anarquista ainda na pré-história:
As pessoas colaboram e se organizam em grandes cidades; a horticultura e o pastoralismo fornecem a base; depois, aquedutos e tecnologias de canalização — como os igualitários e pacíficos Harapenses logo se inclinaram a desenvolver — levam a jardins urbanos e a uma irrigação mais sustentável. Condições sanitárias urbanas levam à queda acentuada da mortalidade infantil, o que (assim como vimos ao redor do mundo) rapidamente leva a populações estáveis e conceitos dramaticamente diferentes de relações com as crianças, o que ajuda a prevenir ciclos viciosos de abuso hierárquico que enraízam mentalidades escravistas. A ausência de velozes desequilíbrios populacionais e de guerras como consequência leva a uma maior preferência temporal e menos pressão para cultivar alimentos a qualquer custo, o que leva a uma experimentação controlada mais sensata em torno de práticas de cultivo. A metalurgia é desenvolvida em um ambiente competitivo e igualitário de lojas de fundo de quintal num estilo mais “faça você mesmo”, que nunca fornecem a coerção inicial necessária para concentrar conhecimento. A linguagem escrita surge da matemática envolvida no estudo da astronomia, do clima, da engenharia, da exploração e da contabilidade, em um mundo onde os mecanismos tribais de reputação têm dificuldade de se expandir para além do número de Dunbar. Começamos a fabricar vidro e lentes muito cedo, o que leva à energia solar e toda a física moderna, assim como os dramáticos avanços na matemática que vêm com isso, e descobertas auxiliares na biologia e na química. A fabricação de vidro – o mero aquecimento artesanal da areia – é tão profundamente importante para os saltos das últimas centenas de anos que eu poderia ficar nerdando sobre isso num texto inteiro, no mínimo tão longo quanto este aqui. Mas basta dizer que um mundo mais deliberativo e científico tem menos pressão e capacidade para extrair e queimar combustíveis fósseis antes de descobrir seu impacto. Em tal mundo sem governos assassinando cientistas, interrompendo pesquisas e fazendo proclamações como “não queremos físicos judeus”, pesquisas fundamentais aconteceriam muito mais rápido, ao passo que a ausência de enormes economias de comando e acumulações de capital significam que a indústria e a infraestrutura de larga escala se desenvolveriam mais devagar.
Podemos não ter uma janela direta a esse universo alternativo específico, mas não temos uma janela para quaisquer outros universos. E é perigoso pra caralho chegar a conclusões demais apenas partindo de nós mesmos. Na verdade, é a falácia conservadora, em que a pessoa presume que o que é ou o que já foi deve ser basicamente tudo o que é possível. Uma arrogância esplêndida e terrível.
O ponto é o de que bordões intermináveis como “Como vocês nerds anarquistas conseguiriam ter roteadores de wifi sem minas de escravis de Coltan no Congo?” são recortes ridiculamente, militantemente tendenciosos. O Coltan por exemplo é disponível em muitas fontes ao redor do mundo, Congo representando uma pequena porcentagem disso; a única razão pela qual certos lugares vêem vasta destrução ecológica ou sofrimento humano é o contexto social. E é realmente raro o recurso que não tivesse depósitos superficiais de fácil acesso. As vastas minas deste mundo existem em boa parte porque os nossos governantes quiseram reter materiais que têm sido colhidos para fins inúteis ao invés de serem reciclados e ressignificados. O ouro é útil para eletrônicos de consumo, mas muito pouco dele é necessário se formos comparar com as quantias desperdiçadas como sinais arbitrários de riqueza. Usando cobre facilmente extraído de depósitos de minério milhares de anos atrás, poderíamos ter feito eletrônicos o suficiente para lançar uma era da informação. Existem muitos jeitos diferentes de fazer semicondutores, baterias, painéis solares e afins, muitas formas alternativas que exigem diferentes recursos. Não há motivo para suspeitar que as abordagens que são econômicas em um mundo com quantias titânicas de força e capital seriam similarmente econômicas sem isso. Quando engenheiros desenvolvem tecnologias que são guiadas pelos recursos que foram feitos de forma economicamente otimizada, se o governo autoritário da China demoliu a moradia de seus cidadãos e reduziu o preço de certas terras raras, então a pesquisa sobre ferramentas que utilizam essas terras raras vai prosseguir mais rapidamente do que a pesquisa sobre alternativas bem menos destrutivas. Afirmar que estruturas e dinâmicas sociais não têm impacto na progressão de tecnologias é insano. E mudanças radicais nas nossas estruturas sociais causariam mudanças radicais nas nossas tecnologias.
É uma infecção generalizada a tendência de ignorar completamente toda tecnologia verde como se fosse uma coisa só e ignorar ordens de magnitude de diferenças de impacto ou relevância. Mas o que isso mais lembra é o tipo de feitiço desesperado para preservar a própria narrativa, o que zoamos com a frase “mas combustível de aviação não derrete vigas de aço”. Proporções importam. É importante quando reduzimos o trabalho de cem pessoas para apenas uma (ou distribuimos esse trabalho entre várias pessoas até se tornar uma pequena tarefa trivial). E, sim, na verdade muito de tecnologia verde oferece melhoramentos dramáticos, não meramente o obscurecimento capitalista verde sobre os verdadeiros custos. As pessoas que trabalham com tecnologia verde não são todas idiotas ou conspiradoras mal intencionadas.
Primitivistas amam apresentar uma hierarquia em que as tecnologias de informação estão disponíveis apenas para poucas pessoas graças ao sofrimento e a escravização colonial de um grande número de indivíduos. Mas a realidade é a de que atualmente quase todo mundo neste planeta tem um celular; bilhões possuem smartphones. O entusiasmo com que pequenas vilas na África constroem turbinas de energia eólica de baixo impacto e faça-você-mesmo para gerar eletricidade para os seus próprios fins, deve ser distinguido das várias ordens de magnitude de desperdício desnecessário no primeiro mundo. O primitivismo muito frequentemente funciona como uma falácia motte-and-bailey, onde argumentos ambientalistas legítimos contra a vasta destruição da nossa atual infraestrutura ridícula e autoritária são magicamente estendidos do nada a argumentos contra toda tecnologia possível – nunca fazendo exatamente uma explicação de como se supõe que o desperdício e a destruição inevitavelmente retornariam.
Invariavelmente uma alusão ao reformismo político é feita quando você aponta caminhos pelos quais a nossa infraestrutura e uso de mercadorias poderiam ser modificados, retendo e aprofundando a nossa capacidade tecnológica. Mas uma tal comparação ao reformismo é estúpida; o poder político é um monstro completamente diferente. A psicologia envolvida em controlar outras pessoas é dramaticamente distinta da psicologia envolvida em dá-las mais possibilidades. Nós temos bons motivos para esperar que o controle continue a lutar por mais controle. Mas capacidade é diferente de controle. A tecnologia – entendida como meio – não domina mentes, ela estende o que elas podem fazer. Você realmente precisa fazer alguns truques
de mágica pós modernos extremamente duvidosos ou se perder em apelos psicológicos grosseiros pra evitar essa realidade.
Similarmente desesperados são os bordões de “crescimento num sistema finito”. A Terra não é de forma alguma um sistema fechado, e este fato sustenta a própria existência da biosfera. Nossos ecossistemas não existiriam sem constantemente tomar energia solar de fora. Nos últimos quinze anos nós temos discutido que essa tecnologia solar ultrapassou todas as barreiras de engenharia supostamente “fundamentais”. Enquanto isso, especialistas concordam que já possuímos tecnologia suficiente para minerar asteroides e, cientes disso — assim como do fato de que muitos asteroides contêm abundâncias de metais raros suficientes para derrubar os mercados globais ou criar uma situação quase de pós-escassez —, bilionários têm investido em empresas de mineração de asteroides. Imagine toda mina no planeta fechando, todos os projetos de remoção de topos de montanha sendo encerrados. Mas novamente, como todo outro maior desenvolvimento tecnológico a partir dos satélites, a única resposta que os primitivistas conseguem reunir é dizer “ficção científica” com o maior tom de desprezo possível.
A realidade é a de que o colapso da civilização no sentido de um Endgame permanente não é nem um pouco garantido. Na verdade, ao passo que há muita fragilidade na nossa atual infraestrutura, é a suposta garantia do colapso da civilização que foi se tornando cada vez mais frágil. Defensores dessa ideia amam tagarelar sobre picos ou catástrofes em potencial como se múltiplos argumentos interrelacionados fossem mais fortes do que um. Bastaria o amadurecimento de uma única tecnologia para descarrilar a coisa inteira. Consiga energia barata através de fusão ou de painéis solares e você conseguirá gastar essa energia com o processamento ou a reciclagem de metais, prevenindo o pico do metal no processo. Consiga metais baratos, e, subitamente, a geração de energia elétrica, solar, etc se torna trivial.
Um colapso do tipo Endgame é certamente uma possibilidade que vale a pena considerar seriamente, mas não é uma inevitabilidade. Também é uma possibilidade que devemos combater até o último suspiro.
Em público primitivistas sempre recuam rapidamente à afirmação de que eles não querem matar sete bilhões de pessoas, que literalmente não há nada que possamos fazer para impedir tal holocausto sem precedentes. Que bobagem. Sete bilhões de pessoas é um número tão astronômico de pessoas que mesmo o menor vislumbre de impedir tal gigamorte salvando a civilização deveria seguramente ocupar todos os nossos momentos de vigília. E pressione eles quanto a isso, comece a falar sobre reatores de sal de tório e fluoredo líquido (impossíveis de derreter, breve meia-vida dos produtos, inúteis para a fabricação de ogivas, maneira útil de se livrar do tório que já está naturalmente envenenando a superfície da Terra em muitos lugares) ou algo do tipo e muito rapidamente muitos deles voltarão a declarações raivosas de que eles destruiriam quaisquer possíveis soluções para o colapso.
Essa resposta deveria ser altamente ilustrativa do quão tênue e superficial é a cortina de fumaça que cobre as suas aspirações genocidas e misantrópicas. Primitivismo é só mais um Marxismo em que você deixa as condições materiais “inevitáveis” fazerem seu massacre e sua gulaguização por você.
Mesmo sendo bem ruim um holocausto sem paralelos e um recuo a um Éden inescapável, primitivo e monótono, o que na verdade provavelmente surgiria seria muito pior. Era comum falar sobre o “pico do metal” e sugerir que o esgotamento de metais raros em formas facilmente acessíveis não iria apenas descarrilar a civilização industrial e impedi-la de ser reconstruída, mas também impediria todas as formas de império. Mas a realidade é a de que coisas como o aço permaneceriam, nos jogando não à era de caçadores coletores, mas, ao invés disso, uma versão permanente e sem fim da Idade Média. E o que nós provavelmente veremos ao invés de um único colapso – o que qualquer primitivista honesto admite para si hoje em dia – é uma série de
catástrofes sem fim. Não haverá uma arrancada de band-aid depois da qual os sobreviventes finalmente consigam algum alívio. A queda de alguns impérios vai significar a provável ascenção de outros impérios, talvez com diferentes características, mas relações de poder similares. Enquanto alguns aspectos do nosso mundo são incrivelmente frágeis, atualmente há redundância o suficiente para que os mesmos sistemas recomecem e sejam muito piores, supondo algum resquício de espaço para a humanidade no planeta. O Brasil por exemplo é movido quase totalmente por energia hidrelétrica. Ao passo que tecnologias da informação e muitas outras tecnologias libertadoras desapareceriam, sociedades industriais de larga escala não vão desaparecer. Um número limitado de pessoas se escondendo entre as frestas de vários Impérios Romanos com certeza não é uma visão anarquista atraente.
Colapso Ecológico
Embora o fim da civilização, anarquista ou não, dificilmente esteja garantido, o colapso ecológico já é uma coisa certa, algo que já tá acontecendo. A única questão é o quão ruim a gente vai deixar isso ficar. E ao abandonar a ciência e a tentativa de engajamento ativo com a tecnologia, acabamos nos envolvendo com um monte de coisas que terminam em ‘-cida’.
A coisa não é tão simples como “apenas mate a civilização industrial e aí a biosfera vai ficar melhor pra vida humana”. A nossa biosfera não é mágica e não deve lealdade a nada para além da física. Não há orientação inerente a um equilíbrio, muito menos um que seja habitável para seres humanos, ou mesmo os atuais animais terrestres.
Eu ouço com frequência anarquistas verdes afirmarem que a solução para o aquecimento global é apenas parar a civilização industrial e deixar as árvores crescerem novamente. Isso é ou desesperado a ponto do delírio ou estupendamente ignorante da ciência do aquecimento global.
As árvores absorvem temporariamente o carbono, mas logo o reemitem quando morrem e se decompõem ou queimam. O carbono no ar neste momento está totalmente além da capacidade das florestas terrestres no seu máximo, e demoraria muito para que as árvores capturassem carbono o suficiente para interromper o ciclo de retroalimentação atual. Os nossos oceanos são geralmente a vasta vasta vasta maioria da captura de carbono no ciclo normal, e eles estão carregados para além de sua capacidade agora. Além disso, árvores na verdade podem aumentar o aquecimento global porque elas são mais escuras e assim absorvem mais radiação solar. De fato basicamente qualquer aumento no tamanho nas florestas boreais agora contribuiria para o aquecimento global. Este é um dos grandes perigos, na verdade, de que as florestas vão se espalhar no hemisfério norte à medida que as temperaturas aumentarem e causarem aquecimento ainda maior.
O carbono que está agora no ar não é parte do ciclo de carbono normal com que as árvores lidavam, é carbono que estava por centenas de milhões de anos trancado dentro da Terra. Na última vez que estava na atmosfera, a Terra era um lugar dramaticamente diferente, inabitável para muitos dos organismos modernos. A única solução que pode realmente nos salvar dos ciclos de feedback descontrolados que desencadeamos e que estão liberando metano e similares é colocar esse carbono de volta na terra, de volta na rocha ou de uma forma parecida. E não tem jeito de fazer isso sem tecnologia e ciência.
Nossa única esperança são tecnologias de carbono negativo – tecnologias que, como subproduto, tiram carbono da atmosfera e de forma mais permanente. Felizmente existe uma vasta diversidade de caminhos pelos quais podemos fazer isso, muitos dos quais já estão em produção e uso. Alguns bem avançados, alguns surpreendentemente simples. As algas são o que originalmente puxou o CO2 do ar ao longo de milhões de anos e tornou nossa atmosfera
respirável. Se o processo de feedback do aquecimento global continuar ininterrupto, a proliferação de algas no oceano corre o risco de destruir a vida marinha e criar consequências tóxicas. Algumas das minhas tecnologias de carbono negativo favoritas geram algas em sistemas controlados – antes de as proliferações de algas na natureza destruírem ainda mais – de formas que geram energia. O subproduto sendo tanto energia para as nossas tecnologias quanto carbono retido. A lógica vai mudando à medida que as tecnologias casuais que foram normalizadas nos últimos dois séculos mudam. Com tecnologias de carbono negativo, quanto mais energia consumimos, menos CO2 na atmosfera.
O trabalho restante a essa altura é fazer com que elas sejam ainda mais eficientes, descobrindo quais são mais eficazes, e transformando-as de mera tecnologia em infraestrutura (ou seja, de produção/uso difundidos). Torná-las infraestrutura requer alguma luta social, mas é viável. Primitivistas sempre estão acusando cientistas e engenheiros de apressarem o desenvolvimento de tecnologias sem o devido cuidado, mas quando exercitamos o devido cuidado desenvolvendo tecnologias verdes eles fingem que o atraso significa que elas são fundamentalmente impossíveis.
De fato apenas através da perspectiva global possível com a ciência moderna nós podemos começar a contextualizar as nossas ações e suas consequências.
Muitas pessoas anti-civ agora estão começando a admitir isso, mas esse ponto não é secundário, ou marginal. Quantidades massivas de toxinas e elementos estão atualmente trancados em produtos ou infraestrutura; levantar as mãos e ir embora é deixá-los vazar. Não são só usinas nucleares ruins e laboratórios de guerra biológica.
E se você espera que haja tempo e um aumento na popularidade de perspectivas revolucionárias, de modo que cientistas revolucionários possam ajudar com algum descomissionamento, você não está falando de um colapso inevitável que não teríamos poder para evitar, você está falando de uma mudança social deliberada e intencional. Então, por que não ir além?
Temos a capacidade de não apenas evitar o aquecimento global e a acidificação dos oceanos, mas de recuperar o Saara e restaurar a megafauna que os caçadores-coletores mataram. (Ao contrário do mito de que povos primitivos eram de alguma maneira conscientes de externalidades ecológicas para além de seus contextos imediatos, análises estatísticas globais recentes demonstraram conclusivamente que caçadores-coletores foram responsáveis pela destruição ecológica do Quaternário tardio). Com uma visão e perspectiva mais amplas providas pela ciência e pela comunicação global nós finalmente temos uma oportunidade de reparar os erros de gerações passadas à medida que nos movemos assintoticamente rumo a uma maior compreensão do nosso mundo, e, portanto, uma maior agência dentro dele.
Essa palavra, agência, é o coração dessa divisão entre o anarquismo e o primitivismo.
Os primitivistas prefeririam que “agência” não fizesse parte da conversa. Eles querem fingir que Não Temos Alternativa a não ser o colapso, que não há escolhas reais ou opções a serem expandidas ou cuidadosamente exploradas. Sua oposição à tecnologia e ao cosmopolitismo fazem total sentido quando a própria noção de expandir as nossas escolhas é tomada como incompreensível. Liberdade física? Que absurdo, não tem como você ser oprimido pela natureza! O que aconteceu para levar alguém a uma tal posição ridícula é um divórcio entre a opressão e qualquer coisa concreta. Agora a opressão não é controlar as pessoas ou restringir suas opções na vida, é só qualquer coisa que conjura sentimentos ruins. Liberdade? Bom, na verdade isso não existe. Apenas ser livre do pensamento, ser livre da escolha, da complexidade, da vigilância, etc.
Esse tipo de obsessão com a ilusão de certeza é a marca registrada da depressão. A fome desesperada pela dor de não ter opções. Muitos comentaristas notaram o nosso meio anarquista se voltando ao tratamento da depressão, da ansiedade e de outras questões de saúde mental como se fossem a experiência essencial do nosso radicalismo. Nós nos aproximamos ao compartilhar disso; e acabamos fetichizando e reforçando essas doenças.
Somente se visto por essa perspectiva é que o primitivismo consegue aparentar coerência com o anarquismo.
Mas aspirar ao genocídio e ecocídio de um colapso é confundir questões de saúde mental com radicalismo. Pose misantrópica com crítica. Estados emocionais com a busca vigilante por dinâmicas fundamentais.
Conclusão
O que esbocei aqui é decididamente não abrangente – de forma intencional. O primitivismo se beneficia de uma vasta gama de diferentes argumentos que acabam se multiplicando sobrepondo-se uns aos outros em uma colcha de retalhos em constante mudança. Assim como “200 Provas de que a Terra Não É Uma Bola Giratória”[2] o que é importante perceber é que os argumentos individuais na verdade não tem nenhuma importância. Uma pessoa poderia passar anos respondendo cada coisa que o Zerzan escreveu, dissecando sistematicamente os seus argumentos e se envolvendo em guerras de citações, mas aqueles que se identificam como primitivistas logo alegremente mudam seu foco para outros escritores com diferentes argumentos. Uma vez que alguém se investe nos adereços da ideologia, da comunidade, da cultura, dos mitos, das fantasias… existem poucos caminhos restantes para que a pessoa mude de opinião. “Anti-civ” e “pós-civ” supostamente deveriam oferecer mais liberdade da prisão ideológica do primitivismo, mas o resultado final tem sido uma prisão ideológica maior e mais amorfa, ainda acorrentada a um centro de gravidade definido pelos mesmos velhos erros primitivistas.
Minha intenção aqui foi prover uma visão geral e um caminho a críticas que as pessoas no meio anti-civ tipicamente não conhecem. (Todo mundo a essa altura está bem ciente da vulnerabilidade do primitivismo sobre questões trans e capacitismo). O que é tão frustrante para muitos anarquistas hackers, cientistas e ex-primitivistas é que os pontos que eu abordei são incrivelmente óbvios para nós. Mas o meio primitivista, em seu relativo isolamento discursivo, desenvolveu uma camada grossa de argumentos e afirmações aceitos acriticamente, que se estendem a muitos campos e tornam o debate uma tarefa hercúlea.
Deve ser admitido que esse tipo de catástrofe ideológica é um efeito colateral dos loops de feedback positivo da complexidade desencadeada por tecnologias modernas de comunicação. Estamos em uma fase inicial, na qual certas posições ainda podem rapidamente acumular camadas de entulho argumentativo que se reforçam mutuamente, até que ultrapassem um “horizonte de eventos” da complexidade argumentativa, tornando-se praticamente inquestionáveis. Onde perspectivas podem vencer não através de argumentos bons, mas sim de argumentos enrolados; frequentemente alternando entre alternativas sem fim ou apelos a noções de “senso comum” implicitamente complexos mas explicitamente simples.
Debater com primitivistas é um processo quase idêntico ao de debater com estatistas. Destrua uma afirmação e eles vão recorrer a centenas de outras. Destrua essas e eles começam a invocar
de novo o que você já demoliu. Tente expor tudo detalhadamente e eles apelam para o quanto mais foi escrito pelos estatistas, dados os seus números superiores. Agora o seu argumento é muito longo para ser lido, ou muito técnico e inacessível. Você não abordou diretamente este argumento específico feito por esta pessoa específica neste livro específico. Faça isso e eles declaram que essa pessoa é irrelevante. Tente atacar tendências gerais em seu discurso e eles denunciam isso como injusto e desconexo. Essas estratégias de proteção usadas por ideologias dominantes refletem técnicas realmente básicas no estilo de Fabricação de Consentimento onde todo o fardo é colocado sobre perspectivas alternativas ou dissidentes e se espera que elas convençam com muito pouco espaço para construir respostas complicadas e para abordar todo argumento imediatamente. E seja o que for que você faça, não importa o tanto de terreno que você os força a ceder, a conversa sempre acaba com um riso de desprezo. Sua posição é impopular porque minha posição é senso comum entre meus amigos. Ou, ainda mais bobo, argumentos sobre o tom, em que o dissidente é rejeitado por não ser suficientemente educado e deferente enquanto bate nas portas trancadas de seu dogma.
E então eles dizem merdas do tipo “o que está aí não precisa de mais defensores”, o que é simplesmente o ápice mais absurdo da simplificação generalizante. E, claro, parte da noção absurda de que a nossa sociedade existente é tudo menos hostil ao desenvolvimento tecnológico e à diversidade.
Um olhar crítico à forma com que tecnologias são usadas ou à normalização de certas formas de infraestrutura não te faz “anti-civ” ou ludita, te faz um ser humano consciente com capacidades básicas de senso crítico. Primitivistas não têm um monopólio sobre o exame de ferramentas e infraestrutura. Mas tal análise crítica precisa ser estendida a tudo, incluindo nossos corpos e nossa biosfera. Radicalismo significa rejeitar afirmações simplistas sobre a “natureza” destes, assim como também significa rejeitar narrativas simplistas sobre abstrações como “civilização”.
Os meios que adotamos podem ter influências corruptivas, podem dobrar para certas direções; na preguiça, nós podemos acabar dando valor a eles como se fossem fins em si mesmos e descartando os nossos fins originais. E certos meios podem ser incoerentes com os fins que eles afirmam trabalhar para realizar. O anarquismo é fundado sobre o reconhecimento de que fins e meios são profundamente interconectados, embora não de forma magicamente exata, um-para-um. Descobrir essas dinâmicas é um trabalho válido e importante, e anarquistas verdes fizeram vários pontos individuais válidos sobre a infraestrutura ossificada pela qual estamos aprisionados. Cobrir a face da Terra com concreto e asfalto é claramente uma merda, assim como cortar a biosfera em pequenos pedaços, etc, etc. Nós obviamente deveríamos ser conscientes e engajados com os meios que escolhemos. Nós deveríamos remover os sistemas sociais e infraestruturais que nos negam a agência com nossos meios. Mas como anarquistas o nosso engajamento crítico com os meios deveria refletir um desejo de expandir a liberdade, não limitá-la, de em última análise fazer mais meios possíveis – até infinitos –, não menos.
Agora alguém pode ainda rejeitar oportunidades de um futuro mais livre, como se não valessem a pena o risco. E alguém pode rejeitar inteiramente os desejos, ideais e ética subjacentes que valorizam vigilância intelectual e liberdades positivas. Tal opinião é coerente, pelo menos tanto quanto o “liberalismo”, mas ela guarda quase nenhuma relação com a anarquia.
Esqueça o pão, esqueça o bolo, esqueça até a padaria; a única reivindicação anarquista é tudo.
REFERÊNCIAS:
[1] 15 Teses Pós-Primitivistas
[2] 200 Provas de que A Terra Não É Uma Bola Giratória